Imagine-se nesta situação: em um intervalo de dois dias, hoje e amanhã, você será o encarregado de cozinhar o almoço para a sua esposa. Ela é exigente, criteriosa, e, para elevar ainda mais o sarrafo, já teve o prazer de desfrutar de um almoço bem preparado no dia anterior.
Você planejou fazer o básico que funciona. Um peito de frango grelhado. Inclusive, você conseguiu um com preço camarada no mercado. Seu dia de sorte. Mas chega a hora de tomar uma nova decisão.
Não dá para servir o peito de frango sozinho, não é? É preciso selecionar os acompanhamentos. Melhorar a composição do seu prato. Você consulta quem está ao redor: familiares, vizinhos, amigos. O consenso facilita a escolha. Te recomendam uma porção crocante de batatas-fritas, um arroz soltinho, o feijão de cada dia, até mesmo uma saladinha. Aquele mix de folhas que, embora não seja unanimidade, cumpre o seu papel.
Ótimo. Com tudo anotado, você parte para o mercado novamente. Chegando lá, tudo o que te recomendaram – mais alguns temperos – está disponível nas prateleiras. Mais um dia de sorte. Mas você é uma pessoa que pensa demais, e um terrível pensamento intrusivo assalta a sua mente. “E o almoço de amanhã?” – se pergunta. A batalha espiritual começa.
Levar um acompanhamento para deixar o almoço de hoje mais gostoso, ou garantir que amanhã você e sua esposa terão algo para comer? Lembre-se: o almoço de ontem foi primoroso, então você precisa estar à altura do desafio. Em meio ao turbilhão de pensamentos, isso não importa mais. A dúvida cruel te assola. Você olha para tudo, a batata-frita, o arroz, o feijão, vai até o caixa, paga e sai do mercado.
Em casa, o prato é servido. Ao ser chamada à mesa, o semblante da esposa é de pura indignação. Há uma confusão latente. A frustração sentou-se com vocês, criou-se uma cadeira para ela. De onde veio? Você vai descobrir. A indagação é inevitável: “Amor, só frango? Onde estão os acompanhamentos?”. Foco no “só”.

Como explicar que você optou por estocar mais frango? Inertes e crus, os novos filés aguardam a vez de irem ao fogo amanhã. E a você resta a dura tarefa de convencer sua esposa de que desistir de guarnições deliciosas foi uma boa decisão, sendo que você simplesmente poderia voltar ao mercado no dia seguinte. Agora, haja paciência para aguentar um dia de frustração. Ou, no caso de Dan Morgan, uma temporada.

